7.11.08

Saudades do Futuro

Retomando, apenas pode haver Saudades do Futuro, visto o Futuro não ser mais do que o Regresso ao Passado. A saudosa Alma Lusa anseia pelo porvir, por estar fora do seu tempo, por se sentir de todos os tempos... assim como de nenhum.
O nostálgico («nostos», regresso e «algia», dor) não é, afinal, aquele que (apenas) se reencontra no Passado:

é o que ultra-passou o próprio tempo, é o que se já se encontra no Futuro. No Presente Primevo, o Real.

Sim, contraditório. Como tudo o que vive.

Isto, que agora vem, não é meu, mas é concerteza Nosso:

Sombra que não há sol capaz de a desfazer
Ou astro que não faz, nascendo, a luz do dia...
Desgosto que não muda em dor algum prazer
Ou prazer que não muda a dor em alegria,
Eis a Saudade... a luz eterna que ilumina
O mar da nossa mágoa...

Amar é a parte do beijo
Que não beija, mas chora...


A saudade é um sentimento misterioro
Que prende a nossa vida à vida que passou,
E que faz regressar um sovereiro idoso
À fecunda semente onde ele se criou...


Tu és a Eternidade, és a Perpetuação...
Por ti, volta a ser água a água que se evapora;
De toda a fria cinza és a Ressurreição;
Por ti, a luz do sol regressa à sua aurora...


Maria há-de chamar a Vénus sua irmã...
(...)
É preciso ligar, fundir na mesma luz
A alegria da Flora e a Paixão de Jesus...


Navios onde vai ao leme a Saudade...


E Vénus, numa névoa etérea e vaporosa
Elevou-se na luz da tarde lacrimosa.
E para o Olimpo azul, em lágrimas, subia,
Projectando na terra a sombra de Maria...


... Eu ouço, por encanto,
Os passos da Saudade... que às estrelas,
Ao infinito, às nuvens se dirigem....


Tristeza do Infinito e da Distância!
Santa tristeza cósmica de Deus!
Calma tristeza ideal da Eternidade!
Tristeza do Indeciso, do Princípio!
Do Vago, do Crepúsculo!...

Eu bem te sinto em mim, pois também sou
Indecisão, crepúsculo e incerteza!
Sou princípio de vida e fim de vida;

Uma aurora e um poente, à mesma hora...


Ó Vénus da Aflição e dos Amores,
Ó Vénus da Tristeza e da Alegria!


Sombra do nosso corpo e nosso espírito!


Vénus, Maria, ou, antes, a Saudade...


És a Senhora da Esperança nova,
A Vénus Virginal do novo Amor!


Tu és o amor carnal já transcendente,
Já pela asa do Espírito tocado!


Tens nos lábios o beijo que se chora,
E a lágrima infinita que se beija
Nos olhos...

És o Estigma da Raça, seu perfeito
E límpido Sinal de Santidade...


Ó Saudade! Ó Saudade! Ó Virgem Mãe,
Que sobre a terra santa portuguesa,
Conceberás, isenta de pecado,
O Cristo da Esperança e da Beleza!


A Virgem da Saudade; a Glória, a Graça,
O místico Esplendor da nossa terra,
Sua Flor evangélica e divina.
Em seu ventre fecundo unificava
A Morte e a Vida, o Tempo e a Eternidade,
Espírito adorado e Corpo amante!


E não tinha a Saudade a sua origem
Remota neste Céu misterioso,
Nesta bela Paisagem transcendente?
E a sua origem próxima e sensível
Na alma profunda, mística e vidente
Deste Povo do Mar e da Montanha?...


És a Virgem ideal da Renascença;
Da Renascença edénica e profunda;
Da Renascença universal do Ser
Que, em ti, regressa à Forma primitiva,
Harmoniosa e sã, para criar
O novo amor divino que já nasce,
Que já alumia, embora vagamente,
Os contornos ideais dum novo mundo...

Teixeira de Pascoaes

2 comentários:

nas asas de um anjo disse...

...portanto, vivemos num sempre passado, na crença de que o presente existe mas ele é tão efémero, tão fugaz,; sendo que futuro é, basicamente passado, presente q já foi.

assim sendo, concordo com a sua óptica no q respeita s "saudds do futuro".

Anita Silva disse...

Bom, acho mais que eu lhe sou a ela, do que ela me é a mim :) mas ao final isso não importa...