30.11.09
Voto
sem remissão

o resto do que aprendi não serve
é um espaço entre caixas largadas
uma concavidade de ter dormido
depois de ter feito o possível
a espera esboroa-se se tocada
o canto é inútil na conjugação do tédio
não tem remédio o que existe
já não pode ser diferente do acontecido
soltar a imaginação é impossível
porque sem forma a memória tudo envolve
um circo de pulgas
com um espectador sem paciência
para esperar pelo fim do espectáculo
e depois o que vem
é uma repetição do que não houve
29.11.09
25.11.09
15.11.09
Mundança
Teixeira de Pascoaes
A vida é a "dança que canta ao dançar" - Dora Ferreira da Silva, não o canto que dança ao cantar. Para que haja o som (a voz) é preciso, primeiro, o silêncio (o corpo).
7.11.09
numa tarde, amanhecia
Às vezes a realidade é um cenário
Vibra com as emanações do íntimo
Até as pedras assumem um semblante
Cheio de sentimento e contrário
À ideia que formamos de que as pedras
Estão petrificadas para sempre
O amor transfigura tudo
Talvez por não ser mais que o nosso estado primitivo
Nada surge separado
É umbilical a distância que une todas as coisas
É abissal a treva de termos nascido
O encontro nada mais é do que abrirmos os olhos
E vermos que sempre estivemos no terreiro da infância
Sempre fomos em unidade e afastamento
Porque o universo está em expansão
Mesmo do lado de dentro
Mesmo que nos consideremos pequenos
Na ínfima majestade que o infinito em nós assume
Por isso uma a vida alada se resume
A pouco mais que um momento de contemplação
Lume breve sopro sem de onde
Festiva excedência
5.11.09
Lisboa, Cidade-Luz II
Manuela de Freitas/José Mário Branco
É preciso inventar de novo o amor
Vinicius de Moraes
1.11.09
Lisboa, Cidade-Luz
Cidade-mãe da tristeza
Já te chamaram velhinha
Menina e moça, princesa
...
Querem saber onde vais
Não querem saber quem és
...
Ai Lisboa, se soubesses
Encontrar quem te encontrasse
...
Disfarçaram-te as raízes
Com roupagem de outras gentes
Vão ouvindo o que tu dizes
P'ra esquecerem o que sentes
Engrandecem-te o passado
Fazem trovas ao teu povo
Vão repetindo o teu fado
Mas não te inventam de novo
Manuela de Freitas/José Mário Branco
Não te vêem, Luz do nosso olhar!
23.10.09
20.10.09
Ver é sentir, não é pensar
Por outro lado, sentir é ver: é ser.
5.10.09
Canción con Todos
Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
asi yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto
4.10.09
As palavras são transparentes
"Tenho ido mais na direção de me tornar transparente a meus próprios olhos para que o mundo, sem minha sombra, brilhe; avançando mais, pergunto-me se amar não é isso mesmo"
Agostinho da Silva
3.10.09
galos, noites e quintais
Quando eu não tinha o olhar lacrimoso,
que hoje eu trago e tenho;
Quando adoçava meu pranto e meu sono,
no bagaço de cana do engenho;
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus,
fazendo eu mesmo o meu caminho,
por entre as fileiras do milho verde
que ondeia, com saudade do verde marinho:
Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia...
quando havia galos, noites e quintais.
Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
o mal que a força sempre faz.
Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais
29.9.09
Almocreve e Saias Raianas
28.9.09
19.9.09
18.9.09
O som está[s] preso dentro da luz
"Para cantar-Te sem mentira,
(...) Já sei que basta ir mais ao fundo:
Ver tudo mais por dentro do que vira."
José Régio
Ouvir é ver por dentro
17.9.09
15.9.09
13.9.09
12.9.09
Sob o sol da liberdade ainda sou criança
Somos notas soltas
O povo vai aprender a falar
Viver é ser livre
da Palavra, não do Silêncio,
da Terra, não do Céu:
a Palavra está presa ao Silêncio,
tal como a Terra ao Céu.
"(...) num país de pinhais sem chão na palavra."
Fernando Pessoa
9.9.09
O Sol na mão
Agostinho da Silva
... a liberdade de ser o Solnado,
não soldado
Da unidade vai nascer
A nova idade...
a Hora é essa
The sun:son in the hand:end
O princípio no fim, o filho na mãe
7.9.09
um beijo de luz!
4.9.09
2.9.09
O visível é o invisível que adormece
O corpo é o sonho da voz
A voz o sono do corpo
Se somos nós a morte, porque não sermos vencidos pela vida?
30.8.09
da pesca, sem linha
Fui pescar a malta à pesca e...não sei por onde comece, se pelo tempo e clima em si, ventoso, como de costume por estas paragens, se por qualquer outra coisa que vier à rede, já que agora aqui me sentei.
Toda a malta alinhada no pontão de pedra, que ladeia a foz, até muito próximo da sarronca, onde se encontra um pequeno farolito que sinaliza a entrada do estuário até ao porto de abrigo, onde guardam os pescadores cofres, redes e outras artes de pesca. As motas de água rasgam episodicamente o inexistente silêncio com o brunhido engasgalhado dos jactos propulsores, ofuscando por momentos o ritmado balancear das águas, que entram com a subida da maré e visivelmente perturbam a necessária concentração que se anuncia solitária e íntima do mais silente em cada um. Pescadores, visionários, espectadores, passageiros, todos se voltam para a fonte ruidosa e, de diferentes maneiras, cada qual acaba por reagir à intempérie: - Ó seu animal! Vai pastar para outro lado! – e eu, desato a rir. - Não vê que eles vêm até aqui só porque têm plateia… olhó casalinho! – canta outro prestíssimo alegrete. A serenidade é uma interrupção, oscilando aqui e ali por momentos ora reflectivos e contempladores, ora céleres e esporádicos… e a aparente tranquilidade do local queda-se, de súbito, num frenesim típico similar à reacção de uma picada do peixe. Uns baixam as canas à pressa tentando por vezes em vão evitar que a linha seja arrastada pelas embarcações e outros, esquecidos de orientar o material, já que pescam à bóia, continuam a entreter-se a vaiar as cada vez mais estranhas formas de lazer que vão surgindo, e que a época proporciona. A fotografia tirada da plateia contempla todas as imagens sucessivas oriundas de multi-disparos sequenciais de ímpares instantes, que, sequenciados, se assemelham particularmente à ideia a que a minha percepção constata como sendo uma possível realidade, ou fragmento episódico - talvez o mais correcto - um estádio alegórico que o acto contemplativo designa e reafirma (absurdo, grande parêntesis). E… acabo por tirar mais uns contactos neste dia, como mais tarde irei ver. Pescam com camarão, vivo ou cozido e, até ver, ninguém com teagem. A foz do rio separa-se do oceano por um istmo de areias móveis na zona próxima ao refluxo das marés e, composta por dunas secundárias, ao longo da imensidão deste braço, cobertas pela vegetação típica dos ambientes mediterrânicos semidesérticos que evoluem a pinheirais, marcam-se na transição para as áreas de bosque ou outras áreas cobertas. Estuário adentro é este o panorama. Para oeste, a mesma extensão de areia compõe uma larga praia desabrigada, todos os dias como hoje, fustigada por ventos dominantes e banhada pela corrente marítima concordante. Tiro da sacola que tresanda a peixe a máquina das fotografias e começo por rever… as últimas da… Batalha da Ponte Ferreira, levada à cena ontem à noite... em Campo... e o sol, a pique! - portanto, escusado será dizer que foi uma rápida revisão, o suficiente para saber que podia tirar, exactamente mais noventa e três contactos para perfazer quinhentos megas em cartão. Mais que suficiente! Umas imagens de lançamentos, um ou dois filmes de curta duração, uma sequência de contactos panorâmicos da vila à esquerda, até ao mar, e à minha mão direita, pouco ou mais nada. Aproveito para cinzelar no caderno que já lá vai uma hora, desde que o vento me despenteia. Viagens por decisões pelo meio, obrigam a que nos desviemos de um terno quente nada, por raros e breves instantes, segundos ou breves minutos, em que o que somos por esse tempo passa sem que se dê realmente por isso… não sei. Entretanto um dos pescadores resolve-se e decide rapidamente levantar chumbo. De fora que me digo, serenamente imbuído no estar-se em observação, depressa me apercebo, por palpite, que não será assim tão fácil resumir o acto… há um problema; estão todos coladinhos uns aos outros, e qualquer repente ou descuido pode ser mortal para a concentração de quem está ao lado com a sua caninha na mão. Um descuido, e adeus calma, se se engalharem os fios de quatro ou cinco canas a pescar para a mesma zona de corrente, que agora, facilmente arrasta consigo cinquenta gramitas de chumbo. A corrente encarrega-se de deslocar tudo, quer seja chumbo, fios, canas e olhares, bem como por vezes arsenais, em direcção do mar, enleando e misturando por vezes toda esta parafernália de matérias, é o que ocorre. A ver, levantou-se muito lentamente… para não tropeçar em ninguém e muito menos tropeçar em si mesmo; nem nas pedras soltas, alteadas em pontão. Até agora, como se vê, nada rápido de ser vitoriosamente executado até a um próximo silêncio descrito. Identificou claramente a sua posição face aos demais libertando-se de si ao redor de tudo o que se não se assemelhava liberto. Posição da linha, posição da cana, correcta postura corporal e uma grande inspiração… profunda, sonora pelo olhar (sentiu-se, senti) – a idade deste amigo era evidente e nada nessa idade se faz à pressa, nem tão-pouco deverá nesta ser feito, mas adiante… – constituíram o momento poético passível de o ser ou por outrem descrito como início da recolha das artes. Ergueu-se, tombando o tronco ligeiramente para trás, num movimento que faz com que o peso corporal, associado à resistência do fio na cana, eleve do fundo a chumbada e anzol de uma só vez, prevenindo a sua perca, bem como por vezes, largos metros de fio, acaso tenha de ser intencionalmente quebrado ou cortado. Com o fio da cana já passado por debaixo dos restantes emoldurados, sem que alguém pedisse, descruzaram os aparatos, e ele, continuou a bobinar contínua a linha que agora se aproximava de si, trazendo muito provavelmente nada. Recolheu-a na totalidade e voltou a iscar camarão, na secreta esperança de ser brindado por uma captura. Sorri, sorrimos aliás… enquanto puxava, dava ideia de balbuciar frases gastas de pescado, historietas de bailas e robalos, historietas essas que levaram a que se contagiassem todos os ânimos já resplandecentes. Iscou de seguida, e o que disse foi tão familiar e certeiro que o fotógrafo das suas fotografias, os pescadores de vara larga e os transeuntes passageiros se desengataram todos finalmente desse anzol a que chamamos expectativa da diversão afectuosa na amizade… Risota total! Pergunto por sargos, responde-me com douradas; pergunto se ao corrico leva a bom porto e não tenho hipótese - aí a amostra da minha alegre ignorância - ou talvez seja uma tentativa de ser alimentado o esparso diálogo até então ali recriado, e por mais não me contive, risada em frente…: - Ó amigo!? Com esta rapaziada toda à volta, a esta hora? Nãa… ao fim da tarde, ali à sarronca… aí sim, pelo menos não há perigo de ficar engalhado nas artes individuais! Está a ver, não está?... É mais calmo, é mais solitário, e sobretudo não ‘aparece’ espectadores… Está não está? - Estou estou, então não estou! … - e sorri, porque tal já tinha para mais tarde te contar.
Ao Mário, ele sabe quem é.
Abraço deste lado da ilha!
26.8.09
As palavras são mãos que aprenderam a ver
24.8.09
22.8.09
doação

de coração a coração
a corrente da luz que alucina
juntura dos perdidos na roda livre da completude
o mundo não tem muros que prendam
para dentro não há limites para a fuga
de mãos dadas na nudez do sem começo
banhemo-nos no fogo azul do princípio
principesca comunhão da descomunal entrega
asas para quê se o voo é do coração
eleva-se quem mergulha ao fundo de si
na soltura na abertura ao infinito
eleva-se e cai no abismo da luz mais pura
o amor
a doação verdadeira
21.8.09
Nós
no passeio dos rom sobre a terra,
nos recitais externos dos recintos ficamos de lento suspirar,
cesto vazio e coração de mundo a respirar.
Nós, os desbordados da brancura.
Nós, os herdeiros do conde do egípcio menor ,
os irmãos da tardinha que não chega,
cor nómada da lua que nunca mais cantou.
19.8.09
12.8.09
acalmia
Inquietação
Alba do começo
Meço o fundo dos dias
Para lhes sondar o abismo galopante
O exorcismo da amargura
Camadas de sal de mar e lume
Sobre as feridas nunca abertas
Pelo gume do esquecimento
Estátua de vento
O desejo de ficar é uma tentação fátua
Despenha-se na inocência dos augúrios
Assim que o sol nasce
Para recolher da noite a pérola secreta
Da continuação
9.8.09
4.8.09
Só vê a Ilha da Vera Luz aquele que vê o invisível: só o invisível é Real, imortal
Fernando Pessoa, Mensagem
24.7.09
3 "sabores" - o desabrochar da frátria
____
ardente de sóis de sempre de inquietação ardente
o meu ser ardente traça-se no espaço corola ardente
semente de girassol ardente jogada ao acaso
pela força ardente de não ter que ser
alada sede vespertina
consumada agonia do horizonte
circum-navegação do oceano de ser mais
vela de espanto largada ao vento
perdição que se consuma a cada instante
ardente paixão de ser errante
todos os versos são derradeiros
todos os poemas são verdadeiros
sem razão sem impostura
na implosão da continuação
a verificação do sem nome
Acima de tudo, Servir (em nome do Amor)
E quando isto acontecer, quando permitirmos o sino da liberdade soar, quando o deixarmos soar em toda a moradia e todo o vilarejo, em todos os estados e em todas as cidades, poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir as mãos e cantar nas palavras do velho espiritual negro:
"Livre afinal, livre afinal.
Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal."
Martin Luther King
20.7.09
consolação

Para quê chorar
O que passa
No centro da graça
Não há desgraça
Não há derrota
Para quê perder
Da razão o sentido
Da alegria a sem razão
Os temporais não passam
Se não nos arrastarem com o vento
Se não nos precipitarmos na chuva
No centro da praça
De lugar nenhum
Não há graça
Não há vitória
Nem vergonha nem glória
Só o paraíso sem ser sonhado
Só o sorriso desfraldado
Daqui para a lua
No meio da rua
Tudo se confunde
Tudo se descompassa
No centro da graça
No impossível da praça
Na razão deitada ao chão
Passa o que passa
No amplo do coração
Expulso do mundo
Coroação do amor
Roda da fortuna
Perdição do mais fundo
17.7.09
Sabiá
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei-de ouvir cantar uma sabiá,
Cantar uma sabiá
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra de uma palmeira
que já não há
Colher a flor que já não dá
E algum amor talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos de me entregar
Como fiz enganos de me encontrar
Como fiz estradas de me perder
Fiz de tudo e nada de te esquecer.
Tom Jobim e Chico Buarque
15.7.09
14.7.09
Copacabana
Copacabana, Casa do Amor
«Há duas hipóteses etimológicas para o nome Copacabana. A primeira alega que o termo vem da língua quechua e significa lugar luminoso ou praia azul. Outras fontes apontam o termo como originário da língua aimará e significaria vista do lago (kota kahuana). Na Bolívia, Copacabana é o nome dado a uma cidade situada às margens do Lago Titicaca, fundada sobre um antigo local de culto inca homônimo. Segundo a lenda, Nossa Senhora teria aparecido no local para um jovem pescador, que em sua homenagem esculpiu a imagem da santa que ficou conhecida como Nossa Senhora de Copacabana: a Virgem vestida de dourado pousada sobre uma meia-lua.»













