21.4.10

Arco-Íris do Homem Novo

"Então o nosso consciente é [uma ilha] que emerge do inconsciente, isto é, de um mar desconhecido, que está para além de nossa consciência (...).

Na sua estrutura a personalidade humana poderia ser comparada ao espectro solar. A parte inferior invisível, a do infravermelho, corresponde ao subconsciente, que está fora da percepção da consciência, como o infravermelho está fora da percepção do olho. Esta é a zona dos instintos, fruto das lições aprendidas no passado, como dos automatismos adquiridos pela longa repetição e que por isso não precisam do controle da consciência para realizar o funcionamento, que se tornou mecânico, do organismo físico. A parte superior, igualmente invisível, a do ultravioleta, corresponde ao superconsciente, e este também está fora da consciência, como o ultravioleta está fora da percepção do olho. Esta é a zona das qualidades superiores ainda a conquistar no futuro, a zona das antecipações evolutivas onde excepcionalmente se realizam as superiores funções psíquicas e espirituais da intuição do gênio, às quais está confiada a descoberta de verdades cada vez mais vastas e profundas, mais próximas do absoluto.
Ora, a consciência normal está situada entre esses dois extremos, que existem fora dela, um debaixo e outro acima, mas para ela invisíveis, para além dos limites do seu conhecimento. E como acontece com o espectro visível, que está situado entre o infravermelho debaixo e o ultravioleta em cima. Em ambos os casos só quando o ritmo vibratório, seja da luz como da consciência, fica dentro do limite de um dado comprimento de onda, é que aparece o que chamamos de luz ou de consciência.

Assim a dimensão do consciente domina a do subconsciente, a do superconsciente a do consciente. Assim, a razão domina o instinto, a intuição domina a razão."

Pietro Ubaldi, Princípios de Uma Nova Ética

11.4.10

no final não há fim




nem toda a espampanância do mundo
me convencerá a ser ausente
ou a estar contente
com aquilo que se evapora e não tem consistência
a beleza é no sem fundo
a percuciência do impossível
nos tímpanos da alma alada
que trazemos enjaulada em nós
o amor é ter a porta aberta
e não saber onde fica o lado de dentro
só resta o vento e a imensidade
o que fica depois da vindima
é a continuação do que não foi colhido

Hoje apetece-me ouvir...

9.3.10

Do Carvão ao Diamante II

"Somos todos pobres. Somos todos pobres porque não podemos amar. Isto é uma realidade - se amarmos mais pessoas, somos mais capazes de amar seja quem for. Se só amarmos uma pessoa, afinal de contas, nem sequer seremos capazes de a amar, pois a nossa capacidade de amar ficará tão reduzida, que mirrará. É como se disséssemos a uma árvore para cortar todas as raízes menos uma.

A verdadeira ênfase deve ser colocada no acto de dar amor, e não no de obter amor.
(...) devemos ensinar à criança mais amor do que matemática, geografia ou história. Ela tem de ser educada para o amor (...). O amor será o apogeu da sua vida. Se perder o amor apesar de ganhar tudo o resto, não passará de um ser vazio, sem conteúdo. É assim que surge a ansiedade."
Osho, Idem

8.3.10

Do Carvão ao Diamante

"Quando uma criança sai da barriga da mãe, encontra-se num estado de grande sofrimento; é como uma árvore que tivesse sido arrancada do solo. Todo o seu ser anseia por voltar a unir-se à terra; a sua ligação à terra era a sua vida, a sua vitalidade, o seu alimento. Ela foi arrancada e anseia por regressar, pois foi privada do seu contacto. (...) É a esse anseio que chamamos sede de amor.

(...) as pessoas não são religiosas porque não compreenderam o sexo até ao momento.
(...) o relacionamento entre marido e esposa é uma viagem, um processo; não é um destino, a finalidade em si. O destino apenas surgirá quando a mulher passar a ser mãe e o homem tornar a ser filho."
Osho, O Livro do Sexo

6.2.10

(i)mu(n)do


Pouco dura

casca de árvore

largada aos elementos

úbere de antigos prantos

a pele revestida por dentro

do musgo do esquecimento

o estranhamento de mim

os dias são o resultado

duma combinatória sem nexo

a arte da atenção

o apego esventrado exposto ao sol

caracol com os cornichos ao sol

a infância toda precipitada das nuvens cinzentas

e o fim ali à mão de semear

tudo acaba na inversão das polaridades do espanto

não tem princípio o que de si nada espera

a vida é uma quimera de retalhos de momentos dissemelhantes

vai para Lisboa a carochinha rutilante num dia antiquíssimo de Primavera

E leva consigo todos os livros da estante impossível de ser eterno

voltará no Inverno para me segregar uma nova meninice

no secreto da esperança

os sapatos velhos que já não uso povoam caixas empoeiradas

de sonhos de ir além

todas as praias me rasgam no coração a miragem triste

de haver duas margens no amor e no engano que há em ser gente

e ser ninguém

o sopro que me anima é um arroubo cigano que me torna presente

a impossibilidade de ser mais que tudo o que não sou



____

5.2.10

O Espiritismo, de Allan Kardec, é o Cristianismo tornado lógico, a fé legitimada pela razão

"A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem."
Místico Árabe

18.1.10

Vasco da Gama

Somos nós que fazemos o destino.
Chegar à Índia ou não
É um íntimo desígnio da vontade.
(...)

O que é preciso, pois, é triunfar.
Nunca meia viagem consentida!
Nunca meia medida
Do vinho que nos há-de embriagar!


Miguel Torga

10.1.10

alienação

para onde vou

nenhuma estrada tem um começo

não há uma chegada num local determinado

mesmo que exista uma praça

com uma torre com um relógio

que torne o tempo presente e bem arrumado

em vidas urbanas que já se encontrem

no seu destino

mesmo aí estarei sempre atrasado

em relação à eterna demanda em que me alucino

6.1.10

5.1.10



Ascende ao profundo

a epiderme do mundo

a ilusão da distância

a música o silêncio

na morte a culminância

a ferida de tudo ao rubro

transfiguração

de mãos dadas antes de ter

se nada se agarra nada se perde

sonhar é o avesso de ter que viver

nada se tem nada extravasa a promessa

de nos vermos soltos de querer

não ter pátria outra que a Perdição

a vida revolta de dentro feita canção

a seiva a voz sempre recém-nascida

não pode ser colhida

nectarina pura e bela

bebida na fonte

com a frescura de não ter sido

no Longe a festa não é um fim

o beijo em visão

a esperança em agonia

resumo de toda a presença

na percuciência da luz

instantes de esquecimento

sem espaço ou tempo ou demora

o impossível a ser agora

impreterível e abrupto

26.12.09

volta


além de simplesmente
você é um abismo
deflorado, quando mente
eu amo e cismo
buracos negros brancas nuvens em Dezembro
eu bebo e crismo
o amor sem nome.

8.12.09

mundividência


O começo do mundo é agora
sem determinismo ou obrigação
jogo de espelhos em paralaxe
há um aqui em cada lugar
o centro não existe
todos os pontos de vista são centrais
e todas as visões são periféricas

30.11.09

Voto

Que não morram as letras
Desta carta. Sozinha
Nem a loucura fique.
Poemas africanos
Em cantos e batuques
Ressoem na brilhante
Estrela dos nossos beijos,
Constituintes flores.
Que não saibam o nome
Dos extintos amores.


sem remissão


o resto do que aprendi não serve
é um espaço entre caixas largadas
uma concavidade de ter dormido
depois de ter feito o possível
a espera esboroa-se se tocada
o canto é inútil na conjugação do tédio
não tem remédio o que existe
já não pode ser diferente do acontecido
soltar a imaginação é impossível
porque sem forma a memória tudo envolve
um circo de pulgas
com um espectador sem paciência
para esperar pelo fim do espectáculo
e depois o que vem
é uma repetição do que não houve

25.11.09

15.11.09

Mundança

"a Poesia nasceu da Dança"
Teixeira de Pascoaes

A vida é a "dança que canta ao dançar" - Dora Ferreira da Silva, não o canto que dança ao cantar. Para que haja o som (a voz) é preciso, primeiro, o silêncio (o corpo).

7.11.09

Não fica nada



Instauração do Reino de Copas

Elevação do Rei Coração

numa tarde, amanhecia

Às vezes a realidade é um cenário

Vibra com as emanações do íntimo

Até as pedras assumem um semblante

Cheio de sentimento e contrário

À ideia que formamos de que as pedras

Estão petrificadas para sempre

O amor transfigura tudo

Talvez por não ser mais que o nosso estado primitivo

Nada surge separado

É umbilical a distância que une todas as coisas

É abissal a treva de termos nascido

O encontro nada mais é do que abrirmos os olhos

E vermos que sempre estivemos no terreiro da infância

Sempre fomos em unidade e afastamento

Porque o universo está em expansão

Mesmo do lado de dentro

Mesmo que nos consideremos pequenos

Na ínfima majestade que o infinito em nós assume

Por isso uma a vida alada se resume

A pouco mais que um momento de contemplação

Lume breve sopro sem de onde

Festiva excedência

5.11.09

Lisboa, Cidade-Luz II

Mas não te inventam de novo
Manuela de Freitas/José Mário Branco



É preciso inventar de novo o amor
Vinicius de Moraes

1.11.09

Lisboa, Cidade-Luz

Já te chamaram rainha
Cidade-mãe da tristeza
Já te chamaram velhinha
Menina e moça, princesa
...
Querem saber onde vais
Não querem saber quem és
...
Ai Lisboa, se soubesses
Encontrar quem te encontrasse
...
Disfarçaram-te as raízes
Com roupagem de outras gentes
Vão ouvindo o que tu dizes
P'ra esquecerem o que sentes

Engrandecem-te o passado
Fazem trovas ao teu povo
Vão repetindo o teu fado

Mas não te inventam de novo

Manuela de Freitas/José Mário Branco

Não te vêem, Luz do nosso olhar!

23.10.09

20.10.09

Ver é sentir, não é pensar

O que se vê é o que se sente originalmente, não o que se pensa (de modo reflexo).

Por outro lado, sentir é ver: é ser.

5.10.09

Canción con Todos



Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
asi yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto


4.10.09

As palavras são transparentes

Nada nos separa

"Tenho ido mais na direção de me tornar transparente a meus próprios olhos para que o mundo, sem minha sombra, brilhe; avançando mais, pergunto-me se amar não é isso mesmo"
Agostinho da Silva

3.10.09

galos, noites e quintais

Quando eu não tinha o olhar lacrimoso,
que hoje eu trago e tenho;
Quando adoçava meu pranto e meu sono,
no bagaço de cana do engenho;
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus,
fazendo eu mesmo o meu caminho,
por entre as fileiras do milho verde
que ondeia, com saudade do verde marinho:

Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia...
quando havia galos, noites e quintais.
Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
o mal que a força sempre faz.
Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais

(Belchior, cantor brasileiro. Letra e vídeo disponíveis em LETRAS)

28.9.09

Memórias de Um Beijo



Queria viver tudo numa noite
sem perder a procurar

18.9.09

O som está[s] preso dentro da luz

Carlos Nejar

"Para cantar-Te sem mentira,
(...) Já sei que basta ir mais ao fundo:

Ver tudo mais por dentro do que vira."
José Régio

Ouvir é ver por dentro

17.9.09

Soantes

15.9.09

Terra Enreizada


A Árvore enraíza a Terra no Céu.


"O céu é o interior da terra."
António Cândido Franco

12.9.09

Sob o sol da liberdade ainda sou criança



Somos notas soltas
O povo vai aprender a falar

Viver é ser livre
da Palavra, não do Silêncio,
da Terra, não do Céu:

a Palavra está presa ao Silêncio,
tal como a Terra ao Céu.

"(...) num país de pinhais sem chão na palavra."
Fernando Pessoa

9.9.09

O Sol na mão

Não amar nos outros senão a liberdade
Agostinho da Silva

... a liberdade de ser o Solnado,
não soldado



Da unidade vai nascer
A nova idade...
a Hora é essa



The sun:son in the hand:end
O princípio no fim, o filho na mãe

Mariposa (NASA)

7.9.09

um beijo de luz!


Não sei o que nas nuvens cavalga além do tempo

O vento que se entranha nos estar a vê-las

Acesas assim navios de velas rasgadas de luz

Não se estranha antes se contempla

Com o coração cheio dos sons de água a correr

O espectáculo que sem acontecer acontece

Em cada dia que entardece

4.9.09

saudação


2.9.09

O visível é o invisível que adormece

Carlos Nejar

O corpo é o sonho da voz
A voz o sono do corpo


Se somos nós a morte, porque não sermos vencidos pela vida?

30.8.09

da pesca, sem linha

Fui pescar a malta à pesca e...
não sei por onde comece, se pelo tempo e clima em si, ventoso, como de costume por estas paragens, se por qualquer outra coisa que vier à rede, já que agora aqui me sentei.
Toda a malta alinhada no pontão de pedra, que ladeia a foz, até muito próximo da sarronca, onde se encontra um pequeno farolito que sinaliza a entrada do estuário até ao porto de abrigo, onde guardam os pescadores cofres, redes e outras artes de pesca. As motas de água rasgam episodicamente o inexistente silêncio com o brunhido engasgalhado dos jactos propulsores, ofuscando por momentos o ritmado balancear das águas, que entram com a subida da maré e visivelmente perturbam a necessária concentração que se anuncia solitária e íntima do mais silente em cada um. Pescadores, visionários, espectadores, passageiros, todos se voltam para a fonte ruidosa e, de diferentes maneiras, cada qual acaba por reagir à intempérie: - Ó seu animal! Vai pastar para outro lado! – e eu, desato a rir. - Não vê que eles vêm até aqui só porque têm plateia… olhó casalinho! – canta outro prestíssimo alegrete. A serenidade é uma interrupção, oscilando aqui e ali por momentos ora reflectivos e contempladores, ora céleres e esporádicos… e a aparente tranquilidade do local queda-se, de súbito, num frenesim típico similar à reacção de uma picada do peixe. Uns baixam as canas à pressa tentando por vezes em vão evitar que a linha seja arrastada pelas embarcações e outros, esquecidos de orientar o material, já que pescam à bóia, continuam a entreter-se a vaiar as cada vez mais estranhas formas de lazer que vão surgindo, e que a época proporciona. A fotografia tirada da plateia contempla todas as imagens sucessivas oriundas de multi-disparos sequenciais de ímpares instantes, que, sequenciados, se assemelham particularmente à ideia a que a minha percepção constata como sendo uma possível realidade, ou fragmento episódico - talvez o mais correcto - um estádio alegórico que o acto contemplativo designa e reafirma (absurdo, grande parêntesis). E… acabo por tirar mais uns contactos neste dia, como mais tarde irei ver. Pescam com camarão, vivo ou cozido e, até ver, ninguém com teagem. A foz do rio separa-se do oceano por um istmo de areias móveis na zona próxima ao refluxo das marés e, composta por dunas secundárias, ao longo da imensidão deste braço, cobertas pela vegetação típica dos ambientes mediterrânicos semidesérticos que evoluem a pinheirais, marcam-se na transição para as áreas de bosque ou outras áreas cobertas. Estuário adentro é este o panorama. Para oeste, a mesma extensão de areia compõe uma larga praia desabrigada, todos os dias como hoje, fustigada por ventos dominantes e banhada pela corrente marítima concordante. Tiro da sacola que tresanda a peixe a máquina das fotografias e começo por rever… as últimas da… Batalha da Ponte Ferreira, levada à cena ontem à noite... em Campo... e o sol, a pique! - portanto, escusado será dizer que foi uma rápida revisão, o suficiente para saber que podia tirar, exactamente mais noventa e três contactos para perfazer quinhentos megas em cartão. Mais que suficiente! Umas imagens de lançamentos, um ou dois filmes de curta duração, uma sequência de contactos panorâmicos da vila à esquerda, até ao mar, e à minha mão direita, pouco ou mais nada. Aproveito para cinzelar no caderno que já lá vai uma hora, desde que o vento me despenteia. Viagens por decisões pelo meio, obrigam a que nos desviemos de um terno quente nada, por raros e breves instantes, segundos ou breves minutos, em que o que somos por esse tempo passa sem que se dê realmente por isso… não sei. Entretanto um dos pescadores resolve-se e decide rapidamente levantar chumbo. De fora que me digo, serenamente imbuído no estar-se em observação, depressa me apercebo, por palpite, que não será assim tão fácil resumir o acto… há um problema; estão todos coladinhos uns aos outros, e qualquer repente ou descuido pode ser mortal para a concentração de quem está ao lado com a sua caninha na mão. Um descuido, e adeus calma, se se engalharem os fios de quatro ou cinco canas a pescar para a mesma zona de corrente, que agora, facilmente arrasta consigo cinquenta gramitas de chumbo. A corrente encarrega-se de deslocar tudo, quer seja chumbo, fios, canas e olhares, bem como por vezes arsenais, em direcção do mar, enleando e misturando por vezes toda esta parafernália de matérias, é o que ocorre. A ver, levantou-se muito lentamente… para não tropeçar em ninguém e muito menos tropeçar em si mesmo; nem nas pedras soltas, alteadas em pontão. Até agora, como se vê, nada rápido de ser vitoriosamente executado até a um próximo silêncio descrito. Identificou claramente a sua posição face aos demais libertando-se de si ao redor de tudo o que se não se assemelhava liberto. Posição da linha, posição da cana, correcta postura corporal e uma grande inspiração… profunda, sonora pelo olhar (sentiu-se, senti) – a idade deste amigo era evidente e nada nessa idade se faz à pressa, nem tão-pouco deverá nesta ser feito, mas adiante… – constituíram o momento poético passível de o ser ou por outrem descrito como início da recolha das artes. Ergueu-se, tombando o tronco ligeiramente para trás, num movimento que faz com que o peso corporal, associado à resistência do fio na cana, eleve do fundo a chumbada e anzol de uma só vez, prevenindo a sua perca, bem como por vezes, largos metros de fio, acaso tenha de ser intencionalmente quebrado ou cortado. Com o fio da cana já passado por debaixo dos restantes emoldurados, sem que alguém pedisse, descruzaram os aparatos, e ele, continuou a bobinar contínua a linha que agora se aproximava de si, trazendo muito provavelmente nada. Recolheu-a na totalidade e voltou a iscar camarão, na secreta esperança de ser brindado por uma captura. Sorri, sorrimos aliás… enquanto puxava, dava ideia de balbuciar frases gastas de pescado, historietas de bailas e robalos, historietas essas que levaram a que se contagiassem todos os ânimos já resplandecentes. Iscou de seguida, e o que disse foi tão familiar e certeiro que o fotógrafo das suas fotografias, os pescadores de vara larga e os transeuntes passageiros se desengataram todos finalmente desse anzol a que chamamos expectativa da diversão afectuosa na amizade… Risota total! Pergunto por sargos, responde-me com douradas; pergunto se ao corrico leva a bom porto e não tenho hipótese - aí a amostra da minha alegre ignorância - ou talvez seja uma tentativa de ser alimentado o esparso diálogo até então ali recriado, e por mais não me contive, risada em frente…: - Ó amigo!? Com esta rapaziada toda à volta, a esta hora? Nãa… ao fim da tarde, ali à sarronca… aí sim, pelo menos não há perigo de ficar engalhado nas artes individuais! Está a ver, não está?... É mais calmo, é mais solitário, e sobretudo não ‘aparece’ espectadores… Está não está? - Estou estou, então não estou! … - e sorri, porque tal já tinha para mais tarde te contar.

Ao Mário, ele sabe quem é.

Abraço deste lado da ilha!

26.8.09

As palavras são mãos que aprenderam a ver

Carlos Nejar

Helen Keller e Anne Sullivan

Cuidado, tuas palavras me tocam.
Cuidado como me tocas.


(A
Verdade
é
trans
parente)

24.8.09

um outro ocaso


ao Paulo, com um abraço.