29.6.09

além-tudo; Alentejo



não te vejo
além do fim e da piedade das ondas de depois do fim
as preces dormentes habitam o interior dos rochedos
o avesso da inquietação de não ser um com o que não há
as contas do rosário de estar aqui
são feitas de sementes de girassol
rodam-me nos dedos em compassos acesos de não ter nascido
abro as asas do esquecimento e fico a pairar de cabeça para baixo
sobre o abismo de não me querer
há um céu invertido que entra pelo chão e toca as fímbrias do impossível
lá onde rios de lava arrefecem a temeridade de querer estar morto e sentir todas as penas dos infernos inclementes
é a minha cegueira
a parede de lonjura que cerceia o horizonte
aqui me recuso à sedentária parição do amanhã
aqui só quero da noite a consumição do desespero
lençóis de linho em alvas solturas de estar enfermo de totalidade
pasto do vento e da continuação
aqui
o chão demora a tornar-se completo
fermentação do que não acaba

4 comentários:

Maria Ana Silva disse...

É bom ver-vos por aqui, de volta. :)

Um beijinho.

Sereia* disse...

Que bonito, este regresso.

E eu, regressada também, venho ver esta Ilha de Luz*

Paulo Feitais disse...

Oi Anita...
Eu não desapareço... O tempo é que se torna difícil de gerir. E há interregnos. Com um internamento hospitalar pelo meio (o susto, felizmente, parece que já passou, mas continuo furtivo aos médicos).
Um beijo imenso!

Sereia!
Um beijo!

Maria Ana Silva disse...

Mesmo assim, continua a fugir aos médicos, e aos medicamentos, sempre que possas.
(O corpo é inteligente demais para os 'homens científicos' - simples demais.)